Meu casamento acabou...

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O meu casamento acabou. Parte um: a missão

Enéas Martim Canhadas

Pontos a ponderar à luz da Doutrina Espírita, contando também com as questões emocionais fundamentada nos conhecimentos que podem nos oferecer a Psicologia enquanto Ciência do Comportamento.

Que tal pensar num casamento que acaba como um ciclo de experiências que foi concluído?

A figura que melhor define a evolução das experiências humanas é a tradicional espiral crescente. As experiências de uma vida representam um momento na eternidade. Serão retomadas outras vezes, em circunstâncias e tempos diferentes. Todavia, nós Espíritos, deixamos pendências ao longo das trajetórias. Esse fato é que complica as coisas.  Numa relação verdadeira de amor, o mais importante seria a vida a dois e não com quem deveríamos vivê-la. O casamento não é, necessariamente, uma relação de amor. Trata-se mais de associação ou encontro. Não foi Vinícius de Moraes que disse “a vida é arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida?”. Esses encontros podem ser bons ou não, complexos ou mais simples. Associar-se nesta vida pode permitir o crescimento e aperfeiçoamento de cada um e importa não repetir histórias passadas. É bem verdade que um casamento pode aprisionar pessoas, mas esta experiência deve ser, para ambos, uma vivência libertadora. Cada um traz, ao casar-se, a sua história pessoal e iniciam a convivência. O fato de se unirem em casamento não anula as experiências pessoais que já possuem. Eles vão procurar conciliar histórias através da aproximação e intimidade permitida pelo casamento. Será um exercício, muito menos romântico e mais prático. Os casamentos, não devem causar perda de identidade. Quando a mulher passa a ser a “mulher de João” e o João passa a ser “o marido de Maria”, ambos podem estar abdicando de suas personalidades.

Evoluir requer tempo. Em nenhum ponto da Doutrina dos Espíritos existe a idéia de apressar a marcha evolutiva de cada Espírito. Pelo contrário, a Doutrina não nos cobra nem impõe prazos. Estamos sendo influenciados pela mudança de valores que vivemos na atualidade. Também pesa sobre a nossa compreensão atual, os valores de que casar-se ou estar casado, não tem mais um caráter indissolúvel da relação entre duas pessoas.[1] Precisamos rever as idéias que, muitas vezes, podem nos oprimir, impondo vida em comum a quem não possui afinidades que pensavam possuir. Ou foram perdidas ou enfraqueceram ao longo da convivência e se desgastaram com o tempo. Impor conselhos, sugestões ou fazer análises, supostamente piedosas, para induzir sua continuidade a todo custo, é pré julgar, é condenar duas pessoas a viverem juntas. Isso não é verdade e não encontra suporte na Doutrina dos Espíritos que pressupõe o livre arbítrio e a responsabilidade proporcional decorrente dos atos de cada um. Não se trata de última chance de suas vidas como Espíritos, uma vez que não se limitam às experiências deste plano.

É muito comum as pessoas e mesmo a orientação de Casas Espíritas ficarem presas a valores[2] como “sagrada família”, “instituição divina”, “sagrados laços”, “laços eternos”, e assim por diante, quando estamos falando de ajustes[3] em meio a dificuldades, ainda acrescidas, geralmente, da educação de filhos, causando conflitos e conturbando o caráter divino da instituição familiar. Bem nos lembra Kardec que, muitos valores e regras, transformam-se ao longo do tempo, podendo mesmo “depender dos costumes e dos usos. Cada país e cada século tem a respeito uma maneira diferente de ver.”[4]  É preciso, antes de mais nada, o casal reconhecer as suas condições pessoais e disposições individuais produzindo tenacidade, dedicação e esforços para construírem um projeto comum, se assim o desejarem. É bem verdade que, em virtude da flexibilização das regras legais para o casamento, parece que as pessoas não se dispõem mais a serem persistentes ou quererem de forma mais intensa, fazerem suas relações darem certo. Talvez muitos nem encarem o casamento como a proposta de um projeto comum de construção. Muito menos de uma tarefa, ou um conjunto de tarefas, para serem desenvolvidos sob uma dupla responsabilidade. É por isso que muitos casamentos vão muito bem enquanto empresa, conseguem adquirir bens, pagar suas dívidas, fazer o patrimônio crescer e se multiplicar,  mas vão à falência emocionalmente falando. A empresa vai muito bem, mas a relação vai muito mal. 

O meu casamento acabou. Parte dois: o retorno

O problema não é que o casamento acaba. A questão é que o vínculo continua através da memória vivencial das pessoas. De frente para as provas, podemos até abdicar delas. O que será é futuro e “o futuro a Deus pertence”. A trajetória evolutiva de cada Espírito trará o dia de amanhã como ele deverá ser, assim como ensina o Cristo nos evangelhos: o dia de amanhã virá com os seus próprios cuidados.[5] Um documento legal por força de leis humanas, não pode representar o fim ou a continuidade de experiências evolutivas de duas pessoas! Atualmente, as relações consensuais, especialmente entre os jovens, crescem em proporção maior do que as relações formais. Isto significa que as relações não dependem de um contrato assinado. Estamos falando de não tomar o casamento firmado no Cartório Civil como documento que legitime a relação de amor e afeto entre duas pessoas. A má interpretação da Doutrina dos Espíritos, é que pode distorcer o discernimento. Sofrível será ouvir que uma união não pode ser desfeita, pois vai gerar novas dívidas dando origem a novas provas em encarnações futuras! Isto é usar o medo e a culpa como idéias educativas.

Depois da separação do casal, os “resgates” pessoais não continuam para cada um? 

Ingênuo pensar que os resgates são interrompidos quando o casamento acaba ou sofre interrupção. Porque medir uma experiência de evolução dos espíritos pela métrica de regras humanas? As experiências que um casal viveu enquanto durou o casamento, passa a compor a história de ambos, que foi e que ainda será perturbada muitas vezes pelos ciúmes, por pensarem que um é propriedade do outro. Os filhos, se houverem, as lembranças e as experiências de tudo que foi vivido,  o cotidiano que trouxe uma profunda intimidade entre ambos,  a memória de tantos detalhes dos quais nunca mais os ex-casados vão conseguir esquecer, os bens em comum que geraram sentimentos de posse e apego, transformados em causas de desentendimentos, incompreensões, mendicâncias de amizade e de afetos deteriorados, discussões e demandas, querelas de toda ordem, cantadas poeticamente por Chico Buarque[6]“...trocando em miúdos pode guardar as sobras de tudo que chama um lar, as sombras de tudo que fomos nós, (...) devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu (...)”. Sentimentos de saudades, memória passada de ódios e desafetos, lembranças imortais de amores que ficaram registrados numa espécie de livro de conta corrente transformados em débitos e créditos de ambos, irão, no mais das vezes, tornar muito maior as dívidas de um para com o outro, fazendo-os credores endividados até o pescoço, dívidas essas que jamais poderão ser quitadas. É assim que um casal acabará perdendo-se em pendências emocionais e sentimentais esquecidas no tempo. Talvez não se casem nunca mais, mesmo em outras existências, mas os aprendizados e a evolução, o aprimoramento de cada um continua de maneira inexorável pela caminhada evolutiva que não depende do tempo cronológico.

O aprimoramento individual dos Espíritos é segundo a história de cada um. Não existem histórias atreladas de modo que, se um estagnar na sua evolução, então o outro também ficará retido. O progresso é individual. Mesmo que alguém acuse alguém de estar dificultando ou impedindo o seu progresso, não será a maneira de acionar o outro para que progrida também, assim como culpar alguém por algo que nos acontece não nos redime da responsabilidade pela nossa própria evolução. A expressão popular de que duas pessoas que vivem juntas não nasceram grudadas, aplica-se totalmente a esta compreensão.

[1]Ver questão 697 do Livro dos Espíritos sobre a indissolubilidade absoluta do casamento.

[2]Idem à nota nº 1.

[3]Ler Capítulo 12 do livro “Pensamento e Vida” psicografado por Chico Xavier e ditado por Emmanuel.

[4]A questão 759-a do Livro dos Espíritos, trata do orgulho e da vaidade nas situações de duelo existentes na época que a Doutrina foi codificada. No entanto, julgamos que a resposta dos Espíritos dada a essa questão, bem pode nos servir para reiterar o fato de que, os costumes mudam com o tempo e as regiões onde existem.

[5]Consultar o evangelho segundo Matheus, 6:34. Dependendo da versão ou tradução, ocorrerão pequenas alterações nos termos, mas o sentido é o mesmo de que cada dia já contém as suas próprias aflições ou seus cuidados. 

[6]“Trocando em miúdos”, música composta por Chico Buarque de Holanda.